Estou há uma hora chorando, tudo começou quando derrubei água no computador. Desliguei e fui comunicar à minha irmã, a quem pertence o PC. E nisso, do suspense da possível quebra do computador fui ao desespero de mais uma noite sem ter minha vó comigo.
Realmente, o luto não acaba, apenas se esconde na rotina, espera que o cotidiano ocupe um espaço na sua mente até que surge subitamente abalando as poucas estruturas ainda remanescentes.
Não há um dia sequer sem que minhas boas e más lembranças se façam presentes em mim. Por sorte tenho muitas mais felicidades a recordar.
Desta vez foi diferente, a culpa trazida por talvez estragar o objeto de principal distração para minha irmã veio antes do remorso angustiante de não ter dado mais de mim à minha vó.
Por mais que falem o quanto me doei, e eu também esteja ciente de quantas noites não dormi para ajudá-la, sempre me pego superanalisando os que eu poderia ter sido melhor.
Não consigo pensar em nada que me distraia da culpa que sinto, é uma batalha de pensamentos em que sou promotor e advogado, acusando e defendendo o réu do julgamento mais pesado que se pode ter: a consciência.
Cama, edredom e travesseiro molhados de lágrimas que não aliviam nenhuma ínfima parte da dor. Cada dia maior. Perco a respiração e não sei se quero voltar a ter ar em meus pulmões. A vida parece tão cruel agora.
Vou tentar melhorar, não por mim, mas por quem amo e a amavam. Ela merece que todos sejamos ou tentemos ser tão bons quanto ela. Queria ao menos que ela pudesse viver como sua mãezinha, que se foi aos 105 anos. Agora 76 parece-me tão prematuro…